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Parada do Orgulho de Belgrado 2023: uma multidão de 15.000 pessoas em uma marcha pacífica com a Assembleia Nacional da Sérvia como pano de fundo.

Sasa Lazic/Belgrado, 9 de setembro de 2023 

Tenho amigos que quero apoiar. Acredito que não é justo como a comunidade LGBTIQ+ é tratada e considero minha presença aqui hoje como uma espécie de dever.”Esse é o depoimento de Pavle, uma pessoa que participou pela primeira vez da Parada do Orgulho como aliada e que se juntou, em 9 de setembro, às mais de 15.000 outras pessoas que, segundo a organização, compareceram à parada de 2023 em Belgrado, na Sérvia, exigindo respeito pelos direitos humanos das pessoas LGBTIQ+ – em um ano em que se comemora o 75º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

Ternos elegantes, camisetas com flores, slogans caseiros, jeans, bermudas, mães, pais – alguns deles com carrinhos de bebê -, grupos de amigos, pessoas aliadas sozinhas, bandeiras do Orgulho, colegas de trabalho, gestores de equipes, médicos, advogados, jardineiros, professores, cientistas, bartenders, estudantes, ativistas de direitos humanos e LGBTIQ+, pessoas que estão pela primeira vez participando da parada como aliadas… Tão diversas quanto uma bandeira do arco-íris, 15.000 vozes marchando juntas, cada uma do seu jeito e com suas próprias palavras e códigos, exigindo algo tão simples quanto o respeito aos direitos humanos. Elas trazem consigo as mais diversas histórias de vida, cores, estilos de roupa e identidades. Como plano de fundo, a Assembleia Nacional da Sérvia e uma faixa com os dizeres “Eu marcho pelo amor”.  

 

Sob o slogan “Não estamos nem perto”, a parada de Belgrado deste ano, que contou com a participação de 15.000 pessoas, foi maior do que nunca. A comunidade local recebeu a adesão de pessoas LGBTIQ+ das crescentes diásporas russa e ucraniana e de várias outras que se tornaram aliadas. 

Aliados tais como Pavle. Quando abordamos esse jovem e perguntamos por que ele havia decidido participar da marcha, ele ficou nervoso com a possibilidade de dizer algo errado, um sentimento que pode ocorrer com muitas pessoas que são novas aliadas. Mesmo assim, ele falou de coração aberto, mostrando que, apesar de ainda não saber muito sobre a realidade das pessoas LGBTIQ+, ele está pronto para se posicionar a favor da igualdade. “As pessoas LGBTIQ+ não deveriam ser tratadas de forma diferente do resto de nós porque, afinal de contas, somos todos humanos”  De fato, não convivi com pessoas LGBTIQ+ durante a maior parte de minha vida, mas agora estou. Estou feliz por ter visto pessoas livres para serem elas mesmas e espero que um dia não haja necessidade de usar uma parada como um protesto, mas como uma celebração.” 

 

Parada do Orgulho de Belgrado 2023: participantes em frente à Assembleia Nacional da Sérvia. A faixa da frente diz ” Nascemos todos livres e iguais em dignidade e direitos”.

 

O orgulho pode ser uma mistura de muitas emoções diferentes para as pessoas envolvidas – um estado de espírito agridoce. Agata, uma pessoa não binária e pioneira do movimento LGBTIQ+ sérvio, expressa esse sentimento em palavras. 

 

Por que a parada é importante? 

 

” Nos disseram que somos algo que não deveria existir Essa é a mensagem mais devastadora que um ser humano pode receber e internalizar. A Parada do Orgulho envia uma mensagem diferente: a de que as pessoas LGBTIQ+ são seres humanos que merecem dignidade, amor e direitos, assim como todas as outras pessoas neste planeta; Isso também mostra a todas as pessoas LGBTIQ+ que estão enfrentando várias formas de violência e discriminação que elas não estão sozinhas e que não devem sentir vergonha de quem são”, disse Agata. 

 

Agata Milan Djuric, defensora dos direitos humanos e diretora do Geten – Centro dos Direitos das Pessoas LGBTIQA+ e da linha de ajuda LGBTIQA SOS. Foto: Geten, Centro dos Direitos das Pessoas LGBTIQA+

 

Ainda não chegamos lá, mas estamos no caminho certo em meio a um histórico de resiliência 

 

Como na maioria dos anos anteriores, a Parada do Orgulho 2023 em Belgrado, capital da Sérvia, ocorreu atrás de espessos cordões policiais que cercaram todo o percurso da marcha. Por trás da segurança rígida, o ensolarado Pride Park se revela, cheio de bandeiras, mensagens poderosas e, o mais importante, pessoas alegres, integrantes da comunidade e pessoas aliadas. Olhando para a alegria das pessoas na parada, Nora Jankovic, mulher trans e defensora dos direitos humanos, ressalta: 

A Parada do Orgulho é uma oportunidade rara de fazer com que nossas vozes sejam ouvidas, de sermos cidadãos visíveis deste país – e é crucial que haja pessoas aliadas suficientes marchando conosco; Caso contrário, acabaríamos nos isolando e sendo excluídas novamente por trás desses cordões policiais.”  

 

Nora Jankovic, defensora dos direitos humanos de pessoas transgênero e intersexo da Talas TIRV, em uma intervenção durante a semana do orgulho em Belgrado.

 

O histórico do evento do Pride na Sérvia não é longo, mas é bastante agitado. Quinze marchas do Orgulho foram realizadas em um período de vinte e dois anos. As duas primeiras marchas foram atacadas por grupos extremistas, com mais de 180 pessoas feridas. Cinco marchas foram proibidas pelas autoridades locais, negando à comunidade LGBTIQ+ a liberdade de se reunir pacificamente nas ruas de sua cidade, apesar de esse direito humano ser protegido pela Constituição sérvia e pelos tratados internacionais de direitos humanos ratificados pela Sérvia. 

Quando não tinham permissão para se reunir em público, as pessoas defensoras dos direitos humanos LGBTIQ+ continuavam lutando pela igualdade fora das ruas, conquistando vitórias no aspecto legal, com algumas proteções LGBTIQ+ importantes sendo aprovadas em lei ao longo dos anos. Em 2013, o Tribunal Constitucional da Sérvia decidiu que a proibição da  Parada do Orgulho era inconstitucional. Apesar da vitória no tribunal, a organização do evento foi informada sobre a nova proibição na noite anterior à sua realização, em 2013, e saiu às ruas imediatamente – no meio da noite – reunindo-se em frente à Assembleia Nacional da Sérvia sob o slogan “This is PRIDE [Isso é orgulho]”.  

De 2014 a 2021, as marchas do Orgulho em Belgrado ocorreram sem incidentes. No entanto, o EuroPride planejado em Belgrado para 2022, um evento internacional pan-europeu da Parada do Orgulho organizado a cada ano por uma cidade europeia diferente, foi proibido novamente em meio a novas ameaças de violência de extremistas anti-LGBTIQ+. Porém, a comunidade local não se deixou abater. Apesar da proibição, uma multidão de 10.000 pessoas compareceu sob uma chuva torrencial em frente ao Tribunal Constitucional da Sérvia exigindo respeito aos direitos humanos, enquanto extremistas anti-LGBTIQ+ entravam em confronto com a polícia. Relembrando a situação, Alexis Plastic, uma drag queen popular e líder da comunidade LGBTIQ+, vê a proibição como uma lição aprendida: 

“Acho que a proibição do EuroPride no ano passado acabou sendo uma coisa boa. Ela retratou com precisão os problemas que enfrentamos. Pior do que a proibição foram os esforços feitos para nos fazer parecer irrelevantes. Apesar disso, a proibição fez com que a população mostrasse sua solidariedade e saísse às ruas em maior número do que antes; Também nos ajudou a entender, como movimento e como comunidade, o contexto que estamos enfrentando e que devemos continuar lutando pela igualdade”.  

 

Alexis Plastic, drag queen e defensor dos direitos humanos LGBTIQ+ com Da Se Zna.

 

E a solidariedade dos cidadãos foi de fato demonstrada este ano na edição de 2023 da Parada do Orgulho de Belgrado, com muitas pessoas participando da marcha pela primeira vez. E normal que as pessoas que se tornaram aliadas recentemente não saibam como ajudar, por isso pedimos alguns conselhos a Jelena Vidic, psicóloga e velha amiga da comunidade LGBTIQ+ de Belgrado, e à ativista lésbica e defensora dos direitos humanos LGBTIQ+ Jelena Vasiljevic. 

 

Por que aliados são cruciais para o avanço dos direitos das pessoas LGBTIQ+? 

 

“É importante que nós, como pessoas aliadas, nos lembremos de não falar em nome daquelas que apoiamos, mas de falar com base em nossa própria experiência e de nos referirmos a fatos científicos e legais ao fazermos nossa parte na marcha pela igualdade LGBTIQ+; Nossa força está na solidariedade e somente por meio dela podemos construir um mundo onde todos se sintam em segurança e no qual a dignidade de cada pessoa seja respeitada”, disse Vidic;  

Por sua vez, Vasiljevic enfatizou as inúmeras maneiras, grandes e pequenas, que pessoas aliadas têm para apoiar pessoas LGBTIQ+: “Além de participar da Parada do Orgulho, a simples defesa dos direitos humanos é uma forma como se pode expressar solidariedade. Apoiar organizações e grupos liderados por LGBTIQ+, usar símbolos de apoio, compartilhar informações úteis nas mídias sociais ou simplesmente oferecer apoio emocional e compreensão às pessoas LGBTIQ+ no cotidiano são apenas algumas maneiras de agir. Aprender sobre nossas experiências, bem como sobre nossos desafios, pode te ajudar a entender melhor nossa realidade e, assim, tornar-se uma aliada melhor à medida que avançamos em direção à justiça e à igualdade. “ 

 

Jelena Vasiljevic, defensora dos direitos humanos LGBTIQ+ com a Rainbow Ignite.

Uma década depois, as mesmas demandas 

 

As principais demandas nacionais da marcha foram as mesmas de uma década atrás: a adoção da lei sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo e a lei sobre identidade de gênero e os direitos das pessoas intersexo, bem como a proteção adequada contra a violência que as pessoas LGBTIQ+ ainda enfrentam. 

“Esperamos que a tão esperada lei sobre identidade de gênero, bem como a lei sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo, seja adotada; Também espero que pessoas trans parem de ser patologizadas e possam ter suas identidades reconhecidas sem exigências abusivas, como cirurgia ou divórcio; Nossas leis em vigor também deveriam ser melhor implementadas. O discurso de ódio e a violência contra as pessoas LGBTIQ+ devem ser sancionados conforme prevêem nossas leis”, disse Aleksa Milanovic, um das líderes da comunidade trans local;  

 

Aleksa Milanovic, defensor dos direitos humanos de pessoas transgênero da Trans Network Balkan, intervindo durante uma das discussões organizadas para a semana do Orgulho em Belgrado.

 

Desde o seu lançamento em 2016, a campanha nacional da ONU Livres & Iguais  na Sérvia tem estado ao lado da comunidade LGBTIQ+, apoiando o evento de Belgrado e a defesa da adoção de leis sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo e sobre identidade de gênero, bem como a despatologização de identidades transgênero, de acordo com as recomendações dos órgãos de direitos humanos da ONU sobre essas questões. Como reflexo dessa parceria, alguns frequentadores da parada usaram espontaneamente faixas antigas da campanha Livres e Iguais da ONU com slogans como “I march for love” (Eu marcho pelo amor) ou “We are all born free and equal in dignity and rights” (Todos nascemos livres e iguais em dignidade e direitos). ”  

Para novos aliados como Pavle, essa parada talvez tenha sido a primeira de muitas. Como ele disse, ao nos tornarmos aliados, à nossa maneira e de acordo com nossas capacidades, com pequenas ou grandes iniciativas, podemos defender a “liberdade de cada um de ser quem realmente é”, independente de quem seja ou de quem ame. 

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